Ponto da tragédia final’: famílias de vítimas da ‘Tragédia do Baldo’ reagem à prisão de motorista

À esquerda, Aluísio Farias Batista, em foto de 1984; à direita, aos 69 anos, após ser localizado e preso em Cuiabá, em 2026 — Créditos da Foto: Reprodução

A prisão de Aluísio Farias Batista, 69, motorista condenado pela “Tragédia do Baldo”, nesta sexta-feira (26), em Mato Grosso, reacendeu lembranças que nunca deixaram as famílias das vítimas do acidente que matou 19 pessoas durante o carnaval de Natal, em 1984.

Quarenta e dois anos depois da tragédia, parentes ouvidos pelo g1 relataram que a captura representa uma resposta da Justiça, embora incapaz de apagar o sofrimento provocado por uma das maiores tragédias da história do Rio Grande do Norte.

Viúva de Wellington Teófanes de Assis, morto aos 31 anos na tragédia, Maria do Céu Pinheiro de Assis, hoje com 75 anos, revive cada detalhe daquela madrugada. O casal teve um filho.

Ela conta que o marido saiu de casa na sexta de Carnaval para acompanhar os blocos e nunca mais voltou. “Ele era muito ‘farrista’, saiu para beber e eu fiquei em casa com minha filha e minha mãe”, conta.

Na manhã do sábado, após o acidente, percorreu hospitais à procura de Wellington até o encontrar no então necrotério do Hospital Walfredo Gurgel.

“Quando eu fui ver, eu já reconheci os pés dele, quando foi abrindo a gaveta. Eu dei um grito e não tornei mais. Foi um momento muito difícil”.

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Apesar da dor que atravessou décadas, Maria do Céu afirma que o sentimento em relação ao condenado mudou com o tempo. “Eu já perdoei ele há muito tempo.”

Ela diz que se emocionou ao ver a notícia da prisão, mas sem alimentar sentimentos de vingança.

“É claro que senti quando eu vi a foto dele, eu me lembro. Saiu em todos os jornais, quando ele era novo, cabeludo. Mas eu não tenho palavras para dizer nada de mal para ele. Foi um episódio muito triste e que agora tem esse ponto final”.

“Nada traz de volta”

Joselúcia Merilym de Lima Gomes tinha apenas 8 anos quando perdeu o pai, o sargento da Polícia Militar Acelúsio Borges Gomes, integrante da banda da corporação que animava o bloco no momento do atropelamento.

Acelúsio morreu aos 33 anos e deixou a esposa, então com 28 anos, e três filhas pequenas. “Hoje, com 51 anos, tento me colocar no lugar da minhã mãe e acho que teria enlouquecido. Ela sozinha para cuidar de mim com 8 e das minhas duas irmãs que tinham 7 e 2 anos”, diz.

Ela conta que só muitos anos depois conseguiu dimensionar o impacto da tragédia na vida da família.

“Até os meus quatorze anos, eu não entendi, porque foi muita coisa. Foi muito sofrimento. Mas sem a gente entender que era por falta dele. Porque a vida da gente, quando ele era vivo, era outra coisa.”

Joselúcia lembra que, após a morte do pai, a mãe ficou anos sem receber pensão e precisou criar sozinha as três filhas. Ao saber da prisão do condenado, encontrou novamente a mãe tomada pela emoção.

“Eu cheguei em casa agora, minha mãe chorando, chorando, abraçando com ela. Disseram que agora ela está em paz, agora a justiça foi feita. Nada traz de volta, mas bota um ponto final”.

A bancária Adriana Banhos Teixeira é outra que carrega a dor da perda há quatro décadas. Ela perdeu a irmã, Simone Banhos Teixeira, de 19 anos, na Tragédia do Baldo. Para ela, a prisão desperta um sentimento de resposta esperada pela família.

“Agora ele vai realmente cumprir a pena que ele foi atribuída pela justiça dos homens num acidente que há 42 anos tirou a vida de minha irmã e de mais 18 pessoas em plena juventude. E não vai trazer nenhuma vítima de volta, mas é uma resposta para a família dessas vítimas.”

O trauma de quem testemunhou

A Tragédia do Baldo também deixou sequelas em quem presenciou o acidente. O bancário aposentado Moisés Monteiro, 73, trabalhava no antigo Banco Sudameris na Av. Rio Branco. Ele tinha encerrado o expediente por volta das 22h.

Moisés estava lanchando próximo ao local quando ouviu o barulho provocado pelo ônibus desgovernado e correu para ajudar no resgate das vítimas.

Ele lembra que ajudou a colocar feridos em táxis para levá-los ao Hospital da Polícia Militar, o mais próximo da região. “Eu escutei o barulho e fui correndo para tentar ajudar. Foi um caos.”

As imagens daquela madrugada permanecem vivas na memória. Trauma que o acompanha até hoje. “Foi um desespero para socorrer as pessoas, eram muitos corpos no chão. Jamais irei me esquecer, passei uns 15 dias sem conseguir dormir”.

As vítimas

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