Costa Branca: Engenheiro areia-branquense conta como chegou à F1 e se tornou o maior especialista nos propulsores da categoria

Referência na FIA e F1, o engenheiro Jonas Cândido é filho do conhecidíssimo casal Chiquinho e Neide, que tem um café no Mercado Público de Areia Branca (Foto: Arquivo pessoal)

Quando você escuta falar de um brasileiro na Fórmula 1, você deve imaginar Ayrton Senna e não Jonas Cândido. Não tem problema. Potiguar de sorriso fácil, mas muito tímido, ele não é de ficar se vangloriando do papel que tem na categoria mais importante do automobilismo mundial.

Jonas é o guardião dos segredos dos motores dos carros mais rápidos do mundo. De todos eles.

Ele nasceu em Areia Branca, uma cidade de pouco mais de 25 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte, e se tornou a referência dentro da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para a parte mais complicada do motor que a categoria usa desde 2014. Hoje, o engenheiro brasileiro é a ponte de contato entre quem faz as regras e as equipes.

O fujão da missa

“Metade do caminho entre Fortaleza e Natal. São 300 quilômetros de cada lado”. Areia Branca é vizinha a Mossoró e foi lá que Jonas Cândido morou até os 14 anos. Foi em Areia Branca, também, que nasceu o gosto pela F1 e pela matemática. “Lembro que, quando era pequeno, ia para a missa de manhã cedo e a gente tentava negociar com minha mãe para sair cinco minutos antes para não perder a largada”, conta.

Quando saiu da cidade em nasceu, Jonas foi para Natal estudar no Centro Federal de Educação Tecnológica, uma escola técnica. Quando terminou o Ensino Médio, entrou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Sempre no ensino público, tinha sido aceito como estudante de engenharia. Na faculdade, conseguiu uma bolsa para fazer parte da graduação na França por meio do convênio CAPES-Brafitec. Foi a primeira vez que ele entrou em um avião na vida — ao chegar, ainda pegou um trem “mais longo do que o quarteirão da minha rua lá em Areia Branca”.

“A gente só tinha quatro vagas para a UFRN. A seleção era baseada na entrevista, nas notas e no domínio do francês. Mas eu não falava nada. Dos quatro que foram, eu era o único que não falava. Mas me mandaram porque eu preenchia todos os outros requisitos”.

Olhando assim, parece que o brasileiro sempre esteve focado em chegar até a Fórmula 1, mas não foi bem isso.

“Quando estava terminando meu período na França, um professor me perguntou com que eu queria trabalhar. Disse que queria a F1, mas sabia que era impossível. Ele disse que eu tinha potencial para chegar lá. Até esse dia, para mim, era outro mundo” – Jonas Cândido.

Um caminho diferente e uma lista de contatos pouco convencional

A frase do professor mudou a cabeça de Jonas. O sonho passou deixou de ser impossível para virar apenas distante. De volta ao Brasil para terminar sua graduação, ele começou a pensar qual seria a melhor estratégia para chegar à categoria máxima do automobilismo.

Estamos falando de 2011 e a engenharia brasileira da Fórmula 1 tinha, sim, uma grande referência justamente na área de motores, que Jonas gostava. Ricardo Penteado também tinha ido estudar em Paris e, por meio da Renault Brasil, chegou ao Instituto do Petróleo da França, que no começo dos anos 2000 era o lugar para quem queria chegar à Fórmula 1 no país estudar. Da equipe de testes da Renault, Ricardo foi para o time de pista, e em 2011 tinha chegado à posição de líder da equipe que operava o motor Renault na Lotus.

Seguir o caminho de Ricardo Penteado parecia fazer todo o sentido, mas Jonas Cândido percebeu que o cenário estava mudando. Em 2014, a Fórmula 1 adotaria o V6 turbo híbrido, com um motor a combustão e dois sistemas de recuperação de energia. No lugar de tentar uma vaga no Instituto do Petróleo, ele se candidatou a um mestrado na Fundação Renault. “Era um mestrado profissionalizante na área de tração elétrica de carro elétrico. Eu sabia que a F1 ia mudar para um motor híbrido e eu gostava dessa área”.

No primeiro dia na nova aventura, ele pediu a uma das líderes do programa de mestrados que seu objetivo era chegar à F1. “Ela perguntou se eu estava sonhando, porque a Renault era um lugar muito fechado, que não pegava estagiário. Mas todo mês eu escrevia uma carta perguntando o que eu tinha que fazer, mas ela dizia que não tinha jeito. Depois de nove meses, a gente teve uma reunião em que todos os engenheiros podiam mostrar seus projetos, mas não apareceu ninguém da F1. Fiquei muito triste”.

Jonas resolveu, então, mudar de estratégia. Aproveitou as férias de dezembro para escutar todos os podcasts e vídeos que a Renault fazia, foi anotando os nomes dos profissionais que eram citados, deduzindo seus e-mails, e conseguiu a lista de contatos. Jonas conseguiu: tinha uma entrevista marcada.

“Eu lembro que estava nevando muito. O cara que ia fazer minha entrevista até falou na época que eu poderia ter algum problema de transporte por conta da neve, e eu disse a ele: ‘Nem que for de carroça, eu vou chegar lá!’. Deu tudo certo para chegar, tirando as duas horas que passei num frio do cão. Com sete minutos de entrevista, ele parou e disse que a vaga era minha. Lembro de ligar para a minha mãe, de voltar felizão no ônibus. Mas não fiz festa. O que eu tinha na cabeça era que, mesmo com todo o esforço para chegar naquele momento, tinha chegado a hora de começar a mostrar serviço de verdade” – Jonas Cândido, sobre o dia 17 de fevereiro de 2012, quando completou 24 anos e conseguiu uma vaga na divisão de motores que o levaria para a F1.

 

Direto na fonte

No ano seguinte, Jonas teve sua primeira experiência trabalhando na pista, em Silverstone, circuito que sediou a primeira corrida da história da F1, e logo com a Red Bull, que dominava o esporte na época. “Foi fantástico, eu lembro como se fosse hoje. Eu sentado no meu lugar, esperando o teste começar, e o Sebastian [Vettel, então bicampeão mundial, a caminho do tri] veio apertar a minha mão. Hoje, é normal para a gente falar com os pilotos. No começo, eu ficava muito impressionado. Até hoje, quando entro na garagem da Red Bull, eu me lembro exatamente de onde estava sentado naquele dia e volta tudo na minha cabeça”.

Em 2014, Jonas trabalhou no time de pista da Toro Rosso (hoje AlphaTauri). Foi um ano importante para engenheiros como ele, que trabalham na parte híbrida. E principalmente para quem era da Renault, que não começou bem. “A gente teve muito perrengue. Teve um teste em que tivemos que trocar as baterias cinco vezes. Dava até vergonha de falar para os mecânicos que não estava funcionando. E teve uma corrida em que um abandono foi bem por causa de uma peça em que eu estava trabalhando. Nem quis ver o resto da corrida”.

Silverstone, circuito que sediou a primeira corrida da história da F1 (Foto: Reprodução F1)

“Quando o motor começou a funcionar pela primeira vez, foi como se eu tivesse tido um filho Era o meu bebê. E quando a peça começou a quebrar no banco de provas, eu não dormi por um mês e meio para resolver. Foi gás total, igual quando você estuda para o vestibular. E no final a gente conseguiu resolver”.

Seu trabalho chamou a atenção da FIA, que lhe fez uma proposta no final de 2018. Era a hora de Jonas sair do campo das equipes e ir trabalhar para quem faz as regras e é uma espécie de ‘polícia’ dos times.

Guardião de segredos

Trabalhando na federação como o principal engenheiro da parte híbrida do motor, Jonas se encontrou. “Não tem a emoção de pensar se você vai ganhar a corrida, não tem aquela vibração toda. Mas é um grande desafio do ponto de vista da engenharia porque cada equipe tem um exército de 1000 pessoas pensando, enquanto a gente tem de tentar prever o que eles estão buscando quando vêm fazer uma consulta conosco sobre o regulamento. A gente tem que saber o que está por trás de cada pergunta”.

Isso porque Jonas é o primeiro ponto de contato entre as equipes e a FIA para todas as questões relacionadas ao sistema híbrido. Então, se uma equipe descobriu algo novo e quer consultar a FIA para entender se isso está dentro do regulamento, é na porta de Jonas que eles batem. E também quando uma equipe quer reclamar de algo irregular que acredita que um rival está fazendo, ele é a primeira pessoa que vai fazer essa avaliação.

Recentemente, Jonas teve muito trabalho fechando com as equipes o regulamento das unidades de potência de 2026. Com cada montadora tentando obter vantagens, as reuniões para fechar o pacote de regras anunciado em agosto se estenderam por mais de um ano.

Foto: AFP/Miguel Schincariol

Com tanto conhecimento, é natural que Jonas seja procurado pelas próprias equipes para mudar de lado novamente. Isso aconteceu por exemplo com Laurent Mekies, que estava sendo preparado para ser o substituto do diretor de prova Charlie Whiting na FIA, mas decidiu ir para a Ferrari dirigir o time de corrida. O know-how de Jonas é valioso principalmente agora que as montadoras já estão se debruçando no projeto do motor de 2026, que vai ter ainda mais potência vinda da recuperação de energia elétrica.

Mas ele percebeu que gosta mesmo é de ter essa visão global que só é possível trabalhando para a federação. “Em dezembro, você já sabe o que todo mundo vai estar falando em fevereiro. Quando você está em um time, só consegue ver o seu sistema. Na FIA, você vê tudo o que está acontecendo. É outro ponto de vista. Além disso, o networking é gigantesco, porque a FIA não é só F1”.

Da universidade pública à F1

A trajetória de Jonas parece incrível, mas se repetiu. Leonardo da Silva, hoje estrategista na Mercedes, se destacou na escola pública em Patos de Minas e conseguiu uma bolsa de estudos em uma escola particular. De lá, fez sua graduação na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e, também por meio de um convênio, foi estudar na École Polytechnique em Paris, sem falar uma palavra de francês.

Leonardo foi outro que encheu a caixa de e-mail de pessoas que trabalhavam na Fórmula 1 até conseguir uma entrevista na Mercedes, onde o chefe de estratégia, James Vowles, o pinçou para sua equipe. E o resto é história: ele ficou conhecido no Brasil quando subiu ao pódio para representar a Mercedes na vitória maiúscula de Lewis Hamilton no GP de São Paulo do ano passado.

As coincidências entre os dois não ficaram só na formação. Leonardo da Silva já levou pamonha escondida na bagagem para ficar com menos saudade de casa. Jonas também. “Tudo o que é de milho e que a gente não encontra em Paris, eu levo. Já levei canjica, pamonha, aqueles flocões de milho. Na época da faculdade, eu comia tanto daquilo que até fiquei com medo do meu sangue ficar amarelo”, se diverte o potiguar.

Jonas só não conseguiu recriar duas coisas na Europa. Uma é o clima do São João. A outra, o baião de dois que Erian, que ajudou por muitos anos sua mãe, Neide, a cuidar da casa enquanto ela vendia lanche no mercado municipal de Areia Branca, faz quando ele volta para casa. “Nos primeiros dias quando eu volto, não quero saber de carne, não quero comer mais nada. Em nenhum lugar eu fico tão feliz ao comer um baião de dois quanto em casa.”

UOL Esporte\Costa Branca News

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